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Resenha #331: O Conto da Aia - Margaret Atwood

Título: O Conto da Aia
Autor: Margaret Atwood
Título original:  The Hadmaid's Tale (1985)
Tradução: Ana Deiró
Editora: Rocco
Edição: 2
ISBN: 8532520669
Gênero: Romance
Ano: 2017
Páginas: 368

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Avaliação: 




Resenha



Margaret Atwood (1939 -) tem cada vez mais conquistado os leitores de todo o mundo. Com o surgimento da série baseada nesta obra produzida pela Hulu (The Handmaid's Tale, 2017), sua popularidade – que já era grande – aumentou consideravelmente, e a tendencia é só subir, já que uma segunda série está prestes a sair  pela Netflix baseada no romance Alias Grace (1998). É inquestionável que ela seja uma das maiores escritoras canadenses e O Conto da Aia está aí para provar isso.

Num futuro não tão distante, Offed, de 33 anos, vive na República de Gilead (levamos a entender que se trata dos Estados Unidos, embora não esteja claro), como serva de uma família. Sendo Aia, ela tem poucos privilégios, conseguindo apenas acesso às ruas uma vez por dia para fazer compras, e vivendo com poucos luxos, já que as mulheres perderam seus direitos, como o da educação (proibidas de ler), e devem seguir os preceitos do velho testamento da bíblia. Por fim, a tarefa mais importante de uma aia é gerar uma criança. Ao termino desse possesso de gestação, ela deve entregar o bebê as donos da casa em que esteve vivendo durante o ciclo e assim seguir para mais uma atividade tida como normal.

Na Gilead, a taxa de natalidade caiu drasticamente por conta da radiação resultante da guerra que ainda está em andamento. As poucas mulheres férteis se tornaram propriedade governamental, tratadas como máquinas reprodutoras, como se não tivessem sentimentos; criaturas inferiores aos homens. É na casa de um desses homens, um comandante de alto escalão do exército e sua esposa, que Offed realizará, sem reclamações, a tarefa que foi treinada e designada, sem escolhas, sem emitir muitas falas, gestos comprometedores ou infringir as regras.
"Sei por que não há nenhum vidro, na frente do quadro de íris azuis, e por que a janela só se abre parcialmente e por que o vidro nela é inquebrável. Não é de fugas que eles têm medo. Não iríamos muito longe. São daquelas outras fugas, aquelas que você pode abrir em si mesma, se tiver um instrumento cortante." (Pág.16)
Para os que desobedecem, há um muro onde corpos de transgressores são fuzilados e expostos com a finalidade de alerta aos demais. Mas o que todos não sabem é que Offed ainda se lembra de seu passado e de que nele era casada, tinha uma filha e, principalmente, liberdade e independência antes da intervenção do governo. Ela parece aceitar a sua condição de criada, numa vida sem esperanças, empatia e compaixão. Entretanto, é em meio a movimentos delicados dentro dessa sociedade totalitária e teocrática, que  ela tentará encontrar o paradeiro da filha com a preocupação de manter-se viva. Entretanto, é em meio a movimentos delicados dentro dessa sociedade totalitária e teocrática, que ela buscará o paradeiro da filha, mas com a preocupação de manter-se viva.
A República de Gilead é um ótimo retrato de uma sociedade distópica. Nela, vemos uma forte presença do antifeminismo e das classes minoritárias, onde tanto mulheres como homossexuais são inferiorizados, assassinados ou tratados como mão de obra escrava em colônias que contém alto teor tóxico. Assim, pouco vemos a presença de feministas, homossexuais, ateus ou qualquer outro grupo religioso que não o do presente governo.
"Minha nudez já é estranha para mim. Meu corpo parece fora de época. Será que realmente usei trajes de banho, na praia? Usei, sem pensar, entre homens, sem me importar que minhas pernas, meus braços, minhas coxas e costas estivessem à mostra, pudessem ser vistas. Vergonhoso, impudico. Evito olhar para baixo, para meu corpo, não tanto porque seja vergonhoso ou impudico mas porque não quero vê-lo. Não quero olhar para alguma coisa que me determine tão completamente." (Pág. 78)
O livro é narrado em primeira pessoa, o que nos envolve com a personagem central. No entanto, Atwood não tem um ritmo de leitura muito acelerado em razão de sua narrativa muito obscura, onde os detalhes vão sendo delineados lentamente, fazendo com que o leitor tome consciência e se situe aos poucos. Tanto é que algumas explicações que são fundamentais para a compreensão só são informadas depois da metade do livro. Por isso, não desista dele, porque mesmo antes de chegar nesse momento, a autora vai soltando verdades sobre sua sociedade que dialoga muito com a nossa. Além do mais, a autora cria ótimas cenas, com belas imagens ricas em simbolismos.

A autora deixa um cliffhanger passível, para o leitor, de várias interpretações sobre o seu final. Isso é incrível dada as teorias e discussões adjacentes e ao mesmo tempo frustante, uma vez que não temos um fechamento total).
O Conto da Aia é um pesadelo que ronda as nossas noites. É um universo escuro e difícil de enxergar, onde somos assustados constantemente e vivemos reféns do medo, da insegurança e invalidez simplesmente por fazermos parte de um grupo dito como menor e inferior; em suma é uma realidade possível, muito possível. 

Por fim, recomendo O Conto da Aia por ser um livro que agradará leitores esforçados a entrar no ritmo da obra, e também por sua carga que leva a discussões de gênero, sexto, religião, educação, feminismo, patriarcado, homossexualidade e tantos outros temas presentes ao longo do livro. 

Até logo,
Pedro Silva!



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